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Ao mesmo tempo em que busca uma gestão mais ativa da carteira de renda fixa da Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, o presidente da entidade, Walter Mendes, coloca em prática medidas para aumentar a liquidez e reduzir a volatilidade do maior e mais problemático plano da entidade, o PPSP, com um patrimônio avaliado em R$ 48 bilhões. É esse o plano que carrega o déficit da Petros, que pode alcançar R$ 27 bilhões no fim do ano. “A carteira do BD [plano de benefício definido] é muito inflexível, pouco mais de 50% dela é realmente líquida, com títulos públicos e ações de mercado. O restante são ativos com pouca ou baixíssima liquidez como imóveis, FIPs [fundos de investimentos em participações], que não se vendem do dia para a noite”, disse Mendes em entrevista ao Valor. A estratégia não resolve o déficit, mas pode evitar novo equacionamento nos anos seguintes, afirma Mendes. Segundo ele, a expectativa é que o plano de equacionamento do déficit seja implementado em novembro. Mas ele ainda precisa passar pela Petrobras e a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest). Em dezembro de 2015, o resultado negativo chegou a R$ 22,6 bilhões, valor que atualizado pela meta atuarial chega a R$ 27 bilhões no fim do ano – a exemplo do que aconteceu em 2016, fatores como a histórica ineficiência de investimentos e compromissos futuros torna o valor do passivo muito superior ao dos ativos, apesar da rentabilidade de 11,53% naquele ano. “Até o final deste ano isso pode mudar muito e a gente ter um rendimento superior”, disse. Em 2017, até abril, a Petros tinha um rendimento de 3,45% ante uma meta atuarial para o período de 3,04%. Mas o efeito negativo em maio nos mercados, com a delação premiada do empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, também afetou a fundação. A Petros ainda não divulgou esses números, mas, segundo Mendes, depois de junho também negativo, uma recuperação tem se desenhado em julho. Essa volatilidade, pelo menos na carteira de títulos públicos do PPSP, Mendes quer evitar. Isso ocorre porque estes ativos têm atualização recorrente de preços, ou seja, são marcados a mercado, o que permite vendê-los a qualquer momento, ao mesmo tempo em que ficam sujeitos às oscilações diárias. Mendes quer marcá-los na “curva”, quando os títulos são contabilizados pelo valor de compra, acrescidos da variação da taxa desde a emissão do papel até o vencimento, de olho na redução da volatilidade. Para isso, os ativos precisam ser carregados até o vencimento. “É possível fazer, mas precisamos ter um controle do fluxo do passivo muito bem feito. Nós estamos investindo neste trabalho de qualificação do ALM [Asset Liability Management, mecanismo de gestão de ativos e passivos], isso era um problema também”, disse. Um balanceamento perfeito entre a previsão de saída de recursos e o vencimento dos títulos é necessário para a fundação não correr o risco de não ter caixa disponível no futuro para pagar os benefícios. Fatores como o programa de demissão voluntária da Petrobras e contingências judiciais também devem ser consideradas. Enquanto no PPSP a fatia dos títulos públicos marcados na curva é praticamente insignificante, ela responde pela maior parte do PP-2. Assim, o plano de contribuição variável não convive com tanta volatilidade. No fim do ano passado, a Petros comprou R$ 4 bilhões em títulos públicos para esse fundo e todos foram marcados “na curva”. Com a redução das taxas dos títulos públicos, que hoje está de 20 a 40 pontos-base abaixo da meta atuarial do plano BD – IPCA mais 5,85% -, a Petros começa a trabalhar na gestão mais ativa da carteira de renda fixa. O volume de negociação ainda é incipiente. No primeiro semestre, a fundação girou R$ 390 milhões em títulos públicos diante de uma carteira total de R$ 42 bilhões. Na comparação com a carteira de renda variável, considerando a parcela mais líquida do plano, a Petros negociou R$ 2,2 bilhões no período. As compras no mercado primário de títulos públicos são feitas diretamente pela fundação e corresponderam a 66% dos negócios no primeiro semestre. No mercado secundário, as operações são distribuídas entre Cetip Trader e dez corretoras escolhidas a partir de critérios de seleção desenvolvidos na gestão de Mendes. Nesse período, a fundação operou com apenas duas corretoras: Renascença, que ficou com 6% das operações, e XP Investimentos, com 5,2% – a Cetip Trader concentrou 22,8% das negociações. “Estamos começando a fazer estas operações, por isso o baixo volume. Também não conseguimos operar com dez corretoras”, disse o gerente-executivo de Operações de Mercado da Petros, Felipe Cosi. A Petros também busca aumentar a liquidez se desfazendo de ativos como o FIP Florestal, que, junto com a J&F, é dono da Eldorado. “A operação [de venda] está andando (…). É algo que pode trazer liquidez”, disse Mendes. “Estamos tentando negociar da melhor forma possível para que não tenha nenhuma perda em relação à meta atuarial”, acrescentou. No caso dos imóveis, também há um plano de desinvestimento, mas nenhum negócio ainda foi fechado. Mendes disse que foram assinados 37 acordos de confidencialidade. “Nós vamos vender quando tiver o preço adequado, quando estiver acima do valor de livro e dentro do intervalo das três avaliações necessárias nesse tipo de processo”, disse. Desde que assumiu, em setembro de 2016, Mendes também buscou aumentar a exposição ao aluguel de ações, que era praticamente inexistente e hoje corresponde a 22% da carteira da Petros, percentual que tende a aumentar, sem revelar valores. O executivo também extinguiu o aquário que separava a mesa de operações do resto da área de investimentos e está em fase final de contratação de plataforma de negociação por meio da qual poderá operar via algoritmos e reduzir o risco de erros. Enquanto Mendes e a equipe de investimentos colocam as mudanças em prática, a Petros busca um diretor para área. O processo de seleção está sendo tocado pela Heidrick & Strugles, empresa especializada no recrutamento de executivos, e já se encontra em fase de finalização, disse o presidente da Petros. O novo diretor substituirá Maurício Gutemberg, que pediu demissão no fim de maio, seis meses depois de ter assumido o cargo, alegando motivos pessoais, e virá do mercado, garantiu Mendes, excluindo também a possibilidade de que seja alguém da Petrobras.

ASTAPE-BA - ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES, APOSENTADOS E PENSIONISTAS DA PETROBRAS DA BAHIA.